A Terra Prometida da casta-média brasileira

23 DE MARÇO DE 2006

O Brasil é um país de 10 milhões de cidadãos e 170 milhões de empecilhos (ou condicionantes) ao seu bem-estar.

O sonho desse setor da sociedade brasileira é um mundo onde os pobres lhes garantam a qualidade de vida que desejam, contanto que permaneçam convenientemente distantes, em seu canto, em seu gueto, em seu devido lugar. Sem incomodar-lhes com seus hábitos estranhos e sua aparência suja. Que não destoem a paisagem, que não atrapalhem normalidade das coisas. Que venham limpar suas casas, vigiá-las, servir-lhes enfim — mas vender trecos ou pedir trocado no sinal da Agamenon ou no Canal de Setúbal, isso não… é feio.

Brasília é o tipo-ideal do conceito urbanístico de boa parte da nossa classe média, ou melhor, casta-média (tal é a imobilidade social em nosso país). É a concretização do “Brazilian Dream”.

O plano geral, a concepção ideológica inclusive, da capital planejada foi antecipado na ficção-científica “Admirável Mundo Novo”, do autor inglês Aldous Huxley, em princípios dos anos 30 do século passado. O mundo futurista imaginado por Huxley é isolado, asséptico; os seres indesejados, inferiores (social e biologicamente), são tolerados na medida de sua utilidade para o funcionamento “normal” da sociedade, para o bem-estar do “todo” (“everyone works for everyone else (…) we can’t do without anyone” é um dos mantras repetidos anos a fio pelo programa governamental de “condicionamento” dos cidadãos do mundo huxleyniano). “The Epsilons don’t really mind being Epsilons. How can they? They don’t know what it’s like being anything else”, explica um personagem, referindo-se a uma das castas sociais inferiores.

Quando publicou o livro no entre-guerras, tratava-se de um alerta sinistro diante dos regimes totalitários que então se desenhavam. Mal poderia imaginar o autor britânico que, menos de trinta anos depois, sua previsão se realizaria num longínquo periférico país tropical, na forma da nova capital federal.

Em Brasília, é-se condicionado a aceitar a ordem social rígida em face da rigidez concreta da própria cidade. A organização das ruas, quadras, áreas de lazer, transporte, tudo conspira para a manutenção hermética, antisséptica, “clean” da cidade. Os habitantes de segunda categoria, socialmente inferiores, vivem em lugares longes, feios e cujo acesso ao “Plano Piloto” (o Admirável Mundo Novo) é restrito às horas de trabalho e aos dias da semana. O metrô (uma linha e umas cinco paradas apenas) simplesmente não funciona nos fins-de-semana. Depois das 22 horas, os ônibus rareiam; depois da meia-noite, praticamente cessam por completo. O acesso aos “bairros” ou regiões mais nobres (os Lagos Sul e Norte) é ainda mais restrito. O indivíduo não-motorizado e morador das cidades-satélites é um Epsilon.

O DF encerra traços semelhantes ao Admirável Mundo Novo. E realiza o “Brazilian Dream” da nossa diminuta, auto-centrada e mesquinha classe-média. O sonho de qualquer típico cidadão casta-média de metrópoles brasileiras como Rio, Belo Horizonte ou Recife é viver na segregação sócio-racial que só Brasília logrou realizar, com sua rigorosa, quase intransponível, fixação física da hierarquização social.

Research Associate & PhD candidate at Freie Universität Berlin’s Governance in Areas of Limited Statehood

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