Cancelamento de Bannon em festinha da New Yorker não é caso de liberdade de expressão, mas de relações públicas

Em recente coluna na Folha (21/09/2018), o articulista João Pereira Coutinho recorre ao cancelamento da participação do ex-assessor de Donald Trump e etnonacionalista extremista Steve Bannon para criticar, de modo mais geral, os progressistas. Estes, de acordo com o autor, ao invés de “confrontar e criticar racionalmente” os expoentes da extrema-direita global, recorrem a “insultos”, “fuga” e “mordaça”. Ora, o exemplo usado por Coutinho demonstra que essa é uma visão simplória que não leva em conta a complexidade e dificuldade para lidar com esse fenômeno.

Para começar, Coutinho, sintomaticamente, ignora as muito mais difusas, penetrantes e insidiosas forças de mercado. Na realidade, as limitações impostas pelas empresas de comunicação — cada vez mais oligopolizadas e, no caso dos EUA, desreguladas — são muito mais poderosas e perniciosas do que eventuais exageros em relação a alguns indivíduos da extrema-direita. Victor Pickard, professor de comunicação na Universidade de Pennsylvania, escreveu que “O cenário midiático dos EUA se destaca entre as democracias liberais por sua comercialização aguda […], é dominada por poucas corporações e é governada apenas levemente por mandatos de interesse público”. Então a liberdade de expressão não deve ser entendida no vácuo, e sim no seu contexto específico. Pickard conclui: “a cobertura da imprensa hoje sobre questões sociais de vida ou morte não se ajusta aos ideais democráticos básicos. […] a mídia não deveria ter permissão para perseguir motivos de lucro imprudentemente para o detrimento de todos. A história por trás da ‘Trumpificação da mídia’ expõe a lógica comercial subjacente que, em última instância, busca entreter, não informar”. Isso gera barreiras estruturais, fazendo com que vozes, geralmente à esquerda do Partido Democrata, sejam sistematicamente excluídas, não sendo nem sequer convidadas, para fóruns como essa festinha de celebridades da New Yorker.

Coutinho parece nunca ter ouvido algumas dessas entrevistas em anos passados. Elas são bem simpáticas, leves, quase celebratórias. Não são entrevistas duras e combativas. O David Remnick, editor da New Yorker, prometeu que a entrevista com o Steve Bannon seria diferente, pois seria realizada com “toda a intenção de lhe fazer perguntas difíceis e se engajar em uma conversa séria e até combativa”. Não só não é esse o histórico do evento, como o próprio formato “Q&A” (perguntas e respostas) conspira contra essa pretensão. Essa semana, Bannon participou de evento da revista britânica The Economist com formato similar. Um membro da audiência tuitou que a editora da revista britânica, Zannin Minton Beddoes, “foi em grande medida derrotada, deixando que Bannon liderasse a conversa, mesmo quando ela tentava fazer perguntas pontiagudas”. O jornalista Felix Salmon observou: “Um editor impresso ou visual controla o resultado, não o entrevistado. Já em um contexto ao vivo, um artista performático como Bannon sempre será capaz de atropelar um entrevistador sóbrio”. Em entrevista ao jornalista Noah Kulwin, na revista New York, Bannon falou “Até chegarmos ao ponto em que Baltimore, Detroit e St. Louis tenham, você sabe, desemprego de jovens abaixo de zero, e ofertas de empregos de alto valor agregado, eu não preciso de nenhum estrangeiro. E eu não sou racista,” e não foi sequer questionado ou confrontado. Outro exemplo das limitações do formato Q&A para lidar com casos assim é o documentário recém-lançado “American Dharma”, do Errol Morris. Segundo o crítico K. Austin Collins, da Vanity Fair, “É claro que é útil saber que a lição de seus anos de Breitbart foi que o ‘poder político latente’ de vozes iradas on-line, como ele descreve, seria um benefício para sua estratégia para Trump. ‘Lembre-se’, ele diz: ‘Eu geri o Breitbart. Eu conheço o jogo’. Ele conhece, até certo ponto; se este filme é alguma indicação, Morris não. O que o diretor não consegue fazer […] é que Bannon revele algo de si mesmo que o homem já não esteja disposto a nos dizer. Não há maneira de contornar Bannon; você tem que passar por ele, e só com a permissão dele”.

Ninguém está defendendo que o Bannon não seja um tópico de interesse público que mereça ser noticiado, debatido, combatido, escrutinado. A questão é se fazê-lo num festival de celebridades é o foro adequado. O artigo de Coutinho, típico representante de uma certa crítica liberal e ingênua, erra o alvo.

Reportagens bem feitas na imprensa americana foram cruciais para expor o pensamento extremista, fundamentalista e, francamente, perigoso, de Bannon. Em 15 de novembro de 2016, o Buzzfeed publicou a transcrição de uma palestra que Bannon deu em 2014 a um grupo católico de extrema-direita em que ele explica, por exemplo, que a crise do capitalismo ocidental se deve à perda de sua fundação “Judaica-cristã”. A mesma Buzzfeed, em 2017, publicou uma reportagem investigativa importante, demonstrando como Bannon, quando editor do site de extrema-direita Breitbart, atuava para tornar suas idéias étnico-nacionalistas “mainstream”. A própria New Yorker publicou uma importante reportagem investigativa da Jane Mayer sobre a família Mercer, bilionários muito influentes politicamente, em que ela cita Bannon: “Os Mercers lançaram as bases para a revolução Trumpiana. Irrefutavelmente, quando você olha para os doadores durante os últimos quatro anos, eles tiveram o maior impacto de todos, incluindo os Kochs”. Alexander Livingston, professor de teoria política na Cornell University, escreveu na revista Jacobin uma análise da visão de mundo de Bannon, em que ele conclui: “A visão apocalíptica de Bannon origina no que Richard Slotkin diagnosticou como a mitologia americana da regeneração através da violência: uma celebração da violência como um ritual de expiação que pode renovar tanto o indivíduo quanto a nação. […] A guerra total é tanto o desafio da civilização americana quanto sua salvação. Como Bannon anunciou na Rádio Breitbart em 2015, ‘é guerra. É guerra. Todos os dias, nós publicamos: a América em guerra, a América em guerra. Estamos em guerra. Nota para si mesmo, amado comandante em chefe: estamos em guerra’”. Em março desse ano, o Guardian publicou uma série de reportagens revelando abusos cometidos pela empresa britânica Cambridge Analytica, ligada a Bannon. Numa delas, é descrita como a empresa lançou mão de dados de usuários de Facebook obtidos de forma irregular para atingir eleitores americanos.

O que não vale é tratá-lo como celebridade e conferir um grau de respeitabilidade e legitimidade a ele e suas idéias que é indevido e nocivo. Mas, tratado criticamente, analiticamente, contextualizadamente, isso é fundamental. Tem uma diferença entre esses exemplos acima e o que ocorreu no evento da Economist descrito mais acima. Fica claro que participar da festinha da New Yorker não iria servir nenhuma função jornalística, mas apenas a de relações públicas do próprio Bannon.

O “New Yorker Festival” existe desde 1999 e, de acordo com um artigo na Ad Week, se trata de um “quem é quem das artes, política e tudo mais” e é também “um grande atrativo para os anunciantes que buscam atingir a audiência bem-sucedida da revista”. O espectro de ideias apresentadas em cada edição é bem limitado (aqui está a programação deste ano). Como o jornalista canadense Will Sloan tuitou, ironicamente mas nem tanto: “o New Yorker Festival está comprometido em explorar um amplo espectro de idéias, do neoliberalismo ao conservadorismo fiscal, à supremacia branca neoliberal e ao nacionalismo branco fiscalmente conservador”. Basta ver o histórico desse evento para notar que, ao contrário da descrição de Coutinho, não haveria “nenhum esforço para confrontar e criticar racionalmente” o Bannon.

Segundo o Guardian, a insatisfação nas redes não começou, como afirma Coutinho, porque “meia dúzia de ‘celebridades’ e uma massa indistinta de histéricos […] pediram o silenciamento de Bannon”, mas sim à partir de um tuíte de uma escritora da própria revista, Kathryn Schulz, em que ela afirma já ter expressado a sua insatisfação ao editor David Remnick e que “você pode, também”, divulgando o e-mail da revista. Entre os palestrantes convidados que anunciaram que cancelariam sua participação estavam Jim Carrey, John Mulaney, Patton Oswalt e Judd Apatow. Diante da ameaça de cancelamento de participantes, da insatisfação de membros da redação, assim como de leitores e assinantes da revista, o editor voltou atrás da decisão de prover plataforma para a divulgação de ideias racistas, xenófobas e etnonacionalistas.

Bannon está em turnê promovendo o seu filme “Trump @ War”. Se você guglar “Bannon interview”, só as mais recentes incluem: MSNBC, CNBC, ABC News (Austrália), The Economist… nos últimos meses, deu longa entrevista ao Channel Four britânico e participou de evento do Financial Times. E por aí vai. Não se trata de uma “tentativa de supressão” de suas idéias, como diz Fareed Zakaria num artigo sobre o tema, mas sim de uma “recusa de promoção” delas. Ou, o que em inglês se costuma chamar de “deplatforming” (recusa de plataforma ou, literalmente, “desplataforma”). Em um artigo muito informativo que vale ser lido na íntegra, Justin Charity explica em que consiste: “Tradicionalmente, ‘desplataforma’ é uma prioridade entre ativistas universitários de esquerda que se opõem a palestrantes de direita e professores. No contexto mais amplo da mídia, a ‘desplataforma’ não proíbe a cobertura de notícias de movimentos extremistas, mas, de preferência, nega a extremistas, como nacionalistas brancos, oportunidades de promover suas ideias”. Na semana passada, o troll de extrema-direita Milo Yiannopoulos postou no Facebook: “Nos últimos três anos, gastei literalmente milhões de dólares tentando fazer palestras, discursos, eventos, manifestações e protestos, para não falar de todas as coisas que faço nos bastidores que nunca poderei contar. Muito desse dinheiro era a minha própria riqueza, desde antes de começar no jornalismo. Meus eventos quase nunca acontecem. São protestos, ou sabotagem de concorrentes republicanos, ou de manifestações de redes sociais. Toda vez, me custa dezenas ou centenas de milhares de dólares”. Em março desse ano, o neonazista americano Richard Spencer, ao cancelar uma turnê em universidades americanas, declarou: “antifa está ganhando”.

O jornalista Zack Beauchamp, da insuspeitíssima Vox, noticiou um estudo de Sanford Ungar, diretor do Free Speech Project da Georgetown University, sobre o assunto. De 2016 até março desse ano, o estudo catalogou em torno de 90 casos de ameaças à liberdade de expressão de indivíduos, dos quais dois terços ocorreram em campus universitários (num universo de 4,583 faculdades e universidades). Desses 60, no período estudado, a grande maioria se refere quase sempre aos mesmos poucos sujeitos — Milo Yiannopoulos, Ben Shapiro, Charles Murray, e Ann Coulter. Beauchamp explica: “Grupos de estudantes conservadores convidam palestrantes famosos por seus discursos ofensivos e racistas — todos os palestrantes acima se encaixam nesse concepção — em uma tentativa deliberada de provocar a esquerda universitária. Em outras palavras, eles estão trollando. Quando os estudantes reagem protestando ou interrompendo o evento, os conservadores o usam como prova de que há uma verdadeira intolerância a idéias conservadoras”. Um outro estudo citado por Beauchamp aponta que entre 2015 e 2017, “professores de esquerda foram mais freqüentemente demitidos por suas ideias do que conservadores”. Um outro estudo citado indica que entre 2011 e 2017, cada ano teve entre 20 e 42 “des-convites” para palestras em campus. O estudo conclui: “11 das 42 desinvitações foram para um único palestrante: o editor da Breitbart e provocador de direita Milo Yiannopoulos”. O analista de mídia, Adam Johnson, após analisar artigos publicados no New York Times em 2016 e 2017, concluiu: “Uma análise dos artigos, colunas, editoriais e relatórios do Times mostra uma ênfase clara em documentar e condenar a supressão percebida de vozes conservadoras nas universidades americanas, enquanto raramente menciona campanhas de assédio contra professores esquerdistas e/ou a criminalização de causas esquerdistas”.

Tanto esse caso específico, como a questão mais geral de liberdade de expressão, é muitíssimo mais complicado do que a caracterização caricatural e simplória do artigo do João Pereira Coutinho. Num contexto de concentração cada vez maior dos meios de produção e distribuição de informação em um punhado de corporações, as limitações à liberdade de expressão mais graves não decorrem de decisões de governos nem de “massa indistinta de histéricos” online. O cancelamento da participação de um multi-milionário diante da pressão exercida por palestrantes convidados, integrantes da redação da revista, e assinantes e leitores, em um evento de celebridades, enquanto ele segue em circuito midiático divulgando seus produtos merda e suas ideias racistas nos Estados Unidos e mundo afora, não constitui uma ameaça à liberdade de expressão ou ao jornalismo livre. Estes sofrem, sim, riscos muito grandes, em parte, inclusive, devido às políticas defendidas por Bannon.

Research Associate & PhD candidate at Freie Universität Berlin’s Governance in Areas of Limited Statehood

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