Convite para palestra de João Campos no King’s Brazil Institute limpa a barra de forma sem vergonha da oligarquia arcaica e corrupta da família Campos.

Imagina acreditar que o João Campos — bisneto de Arraes, filho de Eduardo Campos — foi convidado pra ser chefe de gabinete por conta de sua experiência em campanhas. Risível, não é mesmo?

Mas essa versão totalmente chapa-branca é a que consta no convite para uma palestra de João Campos no King’s Brazil Institute. O prestigiado instituto, liderado pelo respeitado professor Anthony W. Pereira, limpando a barra da oligarquia pernambucana: “Ele participou de campanhas eleitorais em 2006, 2010, 2012 e 2016. Em reconhecimento de suas atividades políticas, em 2014 foi eleito secretário do conselho do comitê do PSB em Pernambuco. Devido à sua experiência em campanhas políticas e seu envolvimento ativo no partido local, foi convocado pelo governador de Pernambuco para o papel de Chefe de gabinete” (Experiência de campanha que envolve a torcida do filho de 12 anos pelo pai; e do apoio de um adolescente de 16 anos pela campanha de reeleição do pai em 2010).

Parece até release do PSB e não a convocação para um debate em um ambiente acadêmico, onde, pelo menos em tese, deve prevalecer o questionamento e o pensamento crítico.

O público londrino, se depender da organização do evento, seguirá ignorante do fato de o rapaz João Campos pertencer a uma oligarquia familiar que vem controlando a política do estado desde 2006. Durante esse tempo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), referente ao ano de 2010, mostra uma queda na posição do estado em relação a 2000; “A média de domicílios vivendo abaixo da linha de pobreza é de 48% e a taxa de analfabetismo chega a um quarto da população acima de 15 anos”; violações de direitos humanos de crianças e adolescentes no sistema socioeducativo do estado; o fiasco ambiental ilustrado por Suape; inúmeros casos de corrupção, demasiados para enumerar, mas que inclui também Suape, a Arena Pernambuco, chegando até ao Palácio das Princesas; a violência estourou, com uma média de 16 homicídios por dia em 2017, subindo quase 40% desde 2014; a repressão contra movimentos dissidentes se intensificou.

A família do rapaz faz parte de uma coalizão governamental que controla as três esferas de poder, conta com uma imprensa mansa, altamente concentrada nas mãos de um punhado de empresários, e lidera um governo totalmente subserviente aos interesses do grande capital no estado.

Como se tudo isso não bastasse, contam também com o apoio da King’s College London. A se crer nessa versão chapa-branca apresentada pela universidade inglesa, João Campos de repente virou uma sumidade da engenharia civil, é um prodígio que, graças a seu árduo trabalho vem galgando os níveis do poder em seu estado natal. Que piada de mau gosto. Talvez os ingleses achem normal que alguém acumule riqueza e poder apenas devido ao sobrenome, porque têm monarquia… mas o Brasil em tese é uma república!

Ou então talvez seja uma tradição britânica se engraçar com oligarquias do terceiro mundo — em 2011 o então reitor da LSE se demitiu quando veio à tona que o filho de Gaddafi, Saif, teria pago um milhão e meio de libras, além de um contrato milionário em que a LSE treinaria funcionários públicos líbios. Resta a pergunta: quanto custou aos cofres públicos pernambucanos esse engraçamento grotesco por parte da universidade londrina?

É lamentável que uma instituição séria se preste ao papel de lustrar a opaca biografia de um jovem membro da oligarquia pernambucana, que só está na posição que ocupa por conta dos laços de compadrios da sua influente família.

Research Associate & PhD candidate at Freie Universität Berlin’s Governance in Areas of Limited Statehood

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