Resenha de “O Processo”, Berlinale, 24/02/2018

O jornalista Adrian Chen, da New Yorker, escreveu essa semana um excelente artigo sobre como manejar sua “experiência sempre lhe pareceu como uma proposição impossível” (“a lose-lose proposition”) em “uma atmosfera em que toda expressão cética sobre Trump-Rússia se torna propaganda pró-Trump”. A mesma coisa sinto em relação à política brasileira ultimamente, onde tudo se torna rapidamente “anti-PT” ou “pró-PT”. E, aliás, isso termina ocorrendo com o próprio filme, a julgar pelo público aqui na Berlinale.

Antes de a sessão começar, o anfitrião apresenta o filme como um dos mais importantes filmes da história em português e conclui: “Eu, pessoalmente, acho que o filme é fantástico”. O filme começa com uma curta e básica introdução, informando ao telespectador que Dilma Rousseff, reeleita pelo “esquerdista Partido dos Trabalhadores”. Em seguida, novas legendas informam que a Lava Jato, lançada alguns anos antes, atingiu "os três principais partidos” do país, incluindo Eduardo Cunha e Michel Temer, descritos como “driving forces” por trás do impeachment. “Dilma Rousseff não estava implicada”. O filme termina com a brutal repressão policial à manifestação na Esplanada, enquanto o caos impera no Congresso. Uma legenda nos informa que o Congresso protege Temer enquanto ele leva adiante uma agenda liberal radical. A narrativa segue uma linha cronológica, sem muitas surpresas quanto à forma.

A diretora Maria Augusta Ramos explicou o seu método: “Tive um acesso importante à defesa da presidenta. Assisti às reuniões do (então Advogado-Geral da União) José Eduardo Cardozo com os assessores e dos senadores da esquerda, do PT e PC do B. Então, tem todos os bastidores do impeachment. Filmamos todo aquele processo que acontece no Congresso, com as comissões e tudo. Mas os argumentos da direita e de quem defendia o impeachment também estão contemplados nas comissões e sintetizados em 2 horas e 15 minutos de projeção”. Um decisão editorial estranha é que não tem legendas identificando os personagens. Então, por exemplo, no que parece ser uma reunião da bancada do PT no Senado (temos que deduzir, porque isso não nos é informado), vemos os senadores Lindbergh Farias, Gleisi Hoffman, Jorge Viana e Humberto Costa falarem. Eu sei isso, porque acompanho algo de política brasileira. Mas o público gringo, e talvez até uma boa parte do público brasileiro, não seja capaz de identificá-los. O filme tem muitas cenas meio sem propósitos, sem sentido narrativo. Hoffman dando uma entrevista no celular, comentando o afastamento de Cunha da presidência da Câmara enquanto caminha pelos corredores do Congresso. Longas tomadas dos prédios da Esplanada. Alguns dos personagens caminhando pelos corredores do Congresso ou pelos seus arredores. Cardozo no carro ao telefone discutindo estratégias.

O Globo explica que o método da diretora nesse filme é comum em outras obras suas: “o princípio que guia a narrativa é o da observação, sem intervenções ou entrevistas diretas. Ela e sua equipe circularam pelos corredores do Congresso, gravaram coletivas de imprensa, acompanharam as votações na Câmara dos Deputados e no Senado, além de presenciar situações e acontecimentos ainda não conhecidos publicamente”. Essa técnica narrativa funciona às vezes; não conheço a obra da diretora, e pode ser que tenha funcionado nos seus outros filmes. Nesse, deixou a desejar. Há vários momentos no filme que poderiam ter sido usado como recurso narrativo para expandir o entendimento do que está acontecendo. Mas isso nunca acontece. A prisão de Paulo Bernardo nos é mostrada através de uma reportagem da TV Band, num dos raros momentos em que o documentário sai do Congresso. Kátia Abreu defendendo Rousseff de forma enfática na Comissão de Impeachment no Senado — poderia ser usado para mostrar o perfil conservador do governo Dilma, destacado por Hoffman e Carvalho, no próprio filme. Um momento estranho, que também poderia ter sido melhor usado pra contar a história, mas ali, jogado, fica meio sem sentido é a íntegra do bate-boca entre Janaína Paschoal e Lindbergh Farias — cena, aliás, que qualquer um pode achar no YouTube. O discurso particularmente cretino de Aécio Neves quando Rousseff faz seu depoimento ao Congresso (em um determinado momento, ele diz: “o maior dos deveres de quem recebe votos é exatamente o respeito às leis, o respeito à Constituição”), principalmente em vista do que viríamos a saber depois, é outro exemplo do que poderia ter sido explorado para contar essa história recente brasileira de forma mais completa.

Mas tem outros momentos bem interessantes. Quando Cunha é afastado da presidência da Câmara pelo Conselho de Ética, Lindbergh fala algo, no que parece ser uma reunião da bancada petista, que provaria anti-profético: “Se o Cunha for cassado, o Temer cai!”. Logo, ele emenda, comentando que todos os partidos estão sendo atingidos pelas investigações: “Até a Marina foi citada” — a sala caiu na risada. Ele conclui dizendo que, depois disso tudo, será preciso fazer uma reforma política. Hoffman fala da necessidade de liderar o “movimento de resistência ao avanço do conservadorismo” (em referência às pessoas que estão indo às ruas protestar contra o processo de impeachment). Ela diz que Dilma Rousseff não os representa, pois seu governo foi de perfil conservador em muitas frentes. Ela conclui: “se a gente voltar, não tem condição de governar”. Cardozo e equipe discutindo estratégias para combater o relatório é um desses momentos que oferecem algum insight. Noutra reunião da bancada do PT, Hoffman explica que Lula e Rousseff teriam sido “descontruídos” pela imprensa, e é por isso que são impopulares. Gilberto Carvalho (que também não é identificado; quem não o conhece, não faz idéia de quem se trate) faz breve análise sobre a questão da imprensa, numa crítica contundente aos governos petistas. Fala que nunca se enfrentou a concentração da mídia, achando que o problema seria solucionado jogando dinheiro nas grandes empresas de comunicação. Ele aponta que o primeiro Governo Lula foi o governo que mais fechou rádios comunitárias. “Estamos caindo sobretudo pelos nossos acertos”, ele fala, “mas nós ajudamos muito”, continua. Ele critica as relações de Dilma com os movimentos sociais e o fato de o PT ter reproduzido práticas políticas acriticamente. Ele conclui dizendo ser preciso ter clareza desses erros de modo a poder romper com eles. Essa cena é um dos momentos mais ricos do filme todo, até pelo contraste entre a fala de Hoffman e Carvalho. Os pontos altos do filme são justamente esses bastidores

Dilma nos braços do povo é uma imagem recorrente, contrastante com a bizarrice dos nossos representantes naquele ambiente claustrofóbico, sem luz natural que é o Congresso. Tudo isso entra na narrativa da vítima que foi apeada do poder por seus méritos. Ilustra bem o problema da falta de contexto. Quem não conhece, pensa que ela era super popular e levava a cabo uma agenda bem progressista. Nunca imaginaria que no decorrer do seu governo e meio, teve péssimas relações com os movimentos sociais, que promoveu um dos maiores casos de estelionato eleitoral na história recente do país, e cujo governo, em várias frentes, houve retrocesso — como, aliás, dirá o próprio Gilberto Carvalho. No dia em que ela deixa o Planalto, em 12 de maio, faz um discurso, novamente em meio a multidão, em que conclui: “estou sendo vítima de farsa política e jurídica”. Depois o que se deduz ser uma entrevista coletiva bem amigável com a imprensa estrangeira (não somos informados do que se trata), que ocorre no Alvorada. Lá ela conta uma anedota de forma meio confusa sobre como os seus críticos a acusam ao mesmo tempo de ser fria e calculista e de ser descontrolada e tomar remédio tarja-preta. Essas imagens fazem parte da história. O problema é elas serem apresentadas sem contexto. Quem não conhece (ou se esquece), não sabe que Rousseff tinha taxas recordes de reprovação popular assim como uma ampla maioria da população apoiava o impeachment. Essas cenas de “Dilma no meio do povo”, embora reais, se tornam meio que enganosas devido à falta de contexto.

A fala da advogada Janaína Pachoal, na abertura do julgamento, é bem maluca. Que essa figura tenha tido papel-chave na política brasileira é apenas mais um indicador da miséria em que se encontra o país. Ela conclui dizendo que está fazendo isso para que “os brasileirinhos que estão me ouvindo acreditem nesse livro sagrado”, segurando alto a Constituição, a voz embargada pelo choro. Vemos Janaína em entrevista a Felipe Barros, Janaína tomando Toddyinho. Na sua fala final, já perto do impeachment, ela explica que não se trata de problemas de contabilidade e que “não aguentamos a política de marketing” do PT. Depois do anti-petismo estridente de praxe, a advogada realiza uma das falas mais bizarras: “Muito embora eu esteja convicta de que estou certa, reconheço que minhas atitudes geram sofrimento. Eu peço desculpas à presidente da República. Não por ter feito o que era devido. Peço desculpas porque sei que a situação dela não é fácil, porque lhe causei sofrimento e peço que ela um dia entenda que eu fiz isso pensando também nos netos dela”.

Cardozo, por sua fez, tem um discurso mais sofisticado, mais juridicamente embasado do que o da Janaína. Embora isso não queira dizer muita coisa. Ele conclui dizendo: “impeachment nesses termos é golpe. (…) Não acredito que mentir pra população numa eleição seja fator para impeachment”. Mais adiante, em meados de maio, quando vaza a conversa entre Sérgio Machado e Romero Jucá, Cardozo faz um discurso bem duro em que denuncia que o o cerceamento ao direito de defesa de Rousseff se trata de justiça na forma mas não na substância. A refutação do relatório por Cardozo é brilhante. Sem dúvida, um dos raríssimos políticos brasileiros capaz de se expressar de forma eloquente. Na sua fala final, momentos antes do impeachment, ele explica assim o que aconteceu: “Ela foi acusada, porque ousou ganhar uma eleição, afrontando interesses daqueles que queriam mudar o rumo do País. Ela foi condenada, porque ousou não impedir que investigações contra a corrupção no Brasil não tivessem continuidade.”

No meio de um debate bastante técnico sobre se as pedaladas seriam ilegais ou não, Lindbergh Farias em um determinado momento desabafa: “Isso aqui é O Processo do Kafka! A Presidenta Dilma é o Joseph K!”. Daí vem o título do filme. Como o meu amigo Cesar Melo, professor de Teoria e História Literária da Unicamp, explica, esse título é bem inadequado: “usar o título de Kafka para falar da situação de uma presidente da República é demais! Dilma é alguém que tem poder e muitas penas amestradas ao seu serviço, além de todo o “apparatchick” do PT disponível nas redes sociais. Ela não é nenhum Joseph K. Joseph K é Rafael Braga. (…) Quer defender Dilma? É legítimo. Não critico. Mas não faça dela algo que ela não é. Não sacaneie com tantas pessoas à margem da Justiça e do Estado de Direito para fazer uma tese política.” O filme é todo contido no Congresso. O título talvez só faça sentido assim, ignorando-se todo o contexto em que aquele espetáculo grotesco está ocorrendo. Quem são aquelas pessoas? Como vieram parar ali? Nunca sabemos, não somos informados. Entre o discurso coerente e racional de Cardozo e a fala amalucada, desconexa e raivosa de Paschoal, tudo restrito ao universo auto-contido do Congresso Nacional, tem-se uma versão descontextualizada e reduzida do acontecido, em que Dilma se assemelha, sim, a uma espécie de Joseph K.

A menos que já se venha com questionamentos ao filme, o espectador não vai achá-los no filme. O filme não é ruim, mas é um filme simpático ao PT e a Dilma Rousseff. Poderia ter sido melhor, e nesse sentido é uma oportunidade perdida, se ousasse contextualizar. Se o espectador entra na sessão sem senso crítico, não vai ter suas idéias e percepções confrontadas — pelo contrário, sairá reconfortado, e é isso que explica a aplauso efusivo, catártico até, de alguns setores das platéias aqui na Berlinale — e a repercussão na tuitosfera brasileira. Dito isto, o filme tem valor, sobretudo as cenas de bastidores, inéditas, que revelam aspectos interessantes e trazem alguns insights sobre a política brasileira contemporânea em geral, e o PT e o petismo, em particular. Mas isso, claro, se o espectador vier com o senso crítico atinado. Para os torcedores, o filme será pró-PT e este meu texto, anti-PT. Adrian Chen saudações.

Atualização 1: A maneira como o recebimento de um prêmio foi noticiado em certos meios (“Filme sobre o golpe no Brasil é ovacionado no Festival de Berlim”, “Documentário contra o Golpe ganha prêmio em Berlim”) comprova o problema explicado pelo jornalista Adrian Chen. Mas repare que, por exemplo, quem for além da manchete escandalosa do site Conversa Afiada, vai se deparar com um texto copiado e colado do UOL que contradiz totalmente o que o título promete. O documentário não é “contra o golpe”, mas defende algo de que quase ninguém discordaria: “que o impeachment teve motivação sobretudo política, e não apenas jurídica”. No entanto, o texto do UOL falha, ao caracterizar o prêmio como sendo o “de melhor documentário escolhido pelo público na mostra Panorama, a segunda mais importante do evento”. O texto d'O Globo é bem mais esclarecedor, apontando que o filme “ficou em terceiro lugar na escolha do público entres os documentários da Panorama, principal mostra paralela”. Uma visita ao site oficial do festival bastaria para verificar a informação. Mas a síndrome de Adrian Chen prevalece…

Vi o filme com legendas em inglês.

Não houve a prometida conversa com a diretora ao final da sessão porque ela estava de cama.

Research Associate & PhD candidate at Freie Universität Berlin’s Governance in Areas of Limited Statehood

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